Casas

Nos mudamos pela primeira vez quando eu tinha 6 anos. Minha mãe tinha engravidado da minha irmã. Lembro que eu estava louca para morar em outro lugar e que fiquei mais empolgada com a ideia de um novo apartamento do que de uma irmã mais nova. Não me entenda errado: eu adorava o antigo apartamento, mas já tinha me cansado dali.
Nos mudamos a segunda vez quando eu tinha 13, pouco depois da minha segunda irmã nascer. Pra mim, já não era sem tempo (de irmos morar num lugar novo e de ter outra irmã). Também adorava aquele apartamento e o quanto ele era comprido, mas também cansei dele.
Meus pais são inquietos por mudança e, por duas vezes, fizeram obras em dois dos apartamentos. Foi quando morei por alguns meses na casa da minha avó e por outros meses na casa da minha dinda.
Aos 25, foi minha vez de mudar. Reformamos um apartamento da família, casei, ocupei. Durou menos de dois anos. Arrumei uma trouxa e me mudei de novo, dessa vez pra NY.
E foi lá que, aos 27, achei pela primeira vez a minha casa.

Só tem lar quem já aprendeu a morar em si mesmo.

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Eu nunca fui uma pessoa de sentir saudades. It’s just who I am. Mas não tem outra palavra para descrever o que eu sinto sobre aquele pequeno studio no Chelsea que me abrigou logo quando cheguei na cidade que mudaria a minha vida.

Eram seis lances de escada até o 2R no 94 15th St. Coisas de de NY. O corredor estreitíssimo tinha carpete velho e cheiro de curry, cortesia dos indianos da ponta oposta. A distância entre a minha porta e a do apartamento da frente era de menos de 1m. Lá morava um casal de velhinhos bem velhinhos, que deixavam os sapatos e uma bengala do lado de fora da porta.

A decoração do studiozinho, que seria o pequeno palco de minhas grandes decisões, nada tinha a ver comigo. As paredes azul-bebê, o sofá enorme rosa pink, o fogão antigo e a geladeira pequena seriam talvez as minhas últimas escolhas. Assim como os móveis em madeira clara tipo pinho e o armário de porta sanfonada espelhada.

A cama era dessas bem baixas, com uma moldura em volta do colchão que provocou roxos incríveis nas minhas canelas. O jogo de lençóis deixado pelo landlord foi prontamente trocado por outro que comprei na Bed, Bath and Beyond: roxo, 600 fios de algodão egípcio, do jeito que eu amo. Era o melhor lugar da casa. Ficava na extremidade esquerda do apartamento, onde duas janelas grandes, sem cortina, ameaçavam a qualidade do meu sono. A verdade é que a claridade nunca me incomodou e eu até acostumei com ela, mas tampava meu rosto com um pano qualquer quando a manhã chegava.

Em frente à cama, uma televisão no alto da parede, quase no teto, em total desacordo com a minha miopia, vivia desligada. Em frente à cama, uma mesa de madeira onde eu deixava meu computador e meu material escolar, e uma cadeira que tentava disfarçar seu desconforto com uma almofada safada e encardida. Fiquei pouco ali, o sofá era uma melhor estação de trabalho. O sofá, aliás, dividia a casa e com a ajuda do armário formava um corredor até a cozinha.

Na cozinha, as louças estranhas que em pouco tempo se tornariam familiares. Para ela comprei facas novas e um único copo. Na cozinha, uma a máquina de lavar louça que eu nunca liguei e o fogão que eu nunca soube ligar. O muito exigido micro-ondas ficava acima da geladeira quase vegetariana que eu mantinha, que por sua vez, era “porta com porta” com o banheiro.

No banheiro, limpei uma privada pela primeira vez na vida e, vejam só, minha mão não caiu. Também entupi a pia e paguei por isso. No banheiro, de forma quase catártica, desinfetei uma banheira usei, por muitas vezes e pelo tempo que queria. Comprei toalhas novas e felpudas (roxas!) que, assim como os lençóis e as facas, ficaram em NY depois de morarem comigo em mais dois apartamentos.

Foi nesse apartamento que tive que aprender a conviver comigo mesma e só. Poderia dizer que conheci minhas limitações, mas foi o contrário. Percebi que eu era muito maior, muito mais capaz, muito mais livre e independente do que sempre me imaginei ser.

Ocupar esse apartamento foi como ocupar meu próprio vazio. Arrumei, desarrumei. Sujei, limpei. Aprendi coisas novas, mudei de opinião. Criei uma rotina e não mantive. Enchi de trabalho, de comida, de lazer. E, quando já estava pronta, recheei de amor.

eu e a melancolia da escada de incêndio da "minha" janela

eu e a melancolia da escada de incêndio da “minha” janela

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Como sobrevivi 3 meses e 3 estações com 2 malas

ou “Como limpar o seu closet”.

Sempre fui do tipo de pessoa de armário cheio, farto, entupido. Quando me mudei da casa dos meus pais, transformei um quarto inteiro em closet. Enchi. Afinal, o espaço estava lá para ser preenchido. Quando acabava o espaço, eu fazia um bazar. Fiz vários, antes mesmo de me mudar, porque a verdade é que sou super desapegada das minhas roupas. Minhas amigas se fartaram em vários deles – o que acho ótimo, porque não “perco” nada.

Aí veio maio e NY, e o momento de fazer uma mala para três meses no verão. Foi mole. Tinha dinheiro guardado, programado para gastar com compras. Fiz uma mala pequena, semi-vazia, que foi levinha para minha temporada no verão da melhor cidade do mundo. Passou o verão. Voltei ao Rio com a mala mais pesada.

arrumando-mala

Plot twist. Vinte dias depois voltei para NY, dessa vez para pegar o resto do verão e todo o outono, com um hint de inverno. Dessa vez não tinha dinheiro para comprar nada além do básico (e aqui pode incluir cerveja, cada um com suas prioridades). Não tinha como fazer uma mala inteligente e, ao mesmo tempo, estilosa. Digamos que fiz uma mala esperta.

Quando passou o super calorzão de agosto, eu pude ver claramente os erros e acertos da minha mala. Mas sobrevivi, com duas malas, em temperaturas que foram de 40º a -6º, sem passar roupa nenhuma vez, lavando poucas vezes e não comprando quase nada (a não ser uma bota e uma coisa e outra no Beacon’s Closet) até a última semana por lá. Tudo por causa da mala esperta, que poderia ter sido ainda mais inteligente.

O mais interessante é que depois eu aprendi nas minhas aulas de Consultoria de Imagem e Personal Shopper que eu fiz nada mais que um armário base, uma coisa que todo mundo deveria ter. Segundo minha professora de PS, você só precisa de 13 peças por estação. E ó, é verdade. Eu comprovei.

Por isso, acho que as manhas da mala inteligente podem ser muito bem repetidas nos nossos closets entupidos. Percebe só:

Como cheguei com 40º e sabia que toleraria temperaturas abaixo de zero, quase todas as minhas roupas de verão poderiam ser transferidas para o inverno. As saias podiam ser usadas com meia-calça, alguns shorts também, assim como os vestidos. Blusas mais leves podiam ser colocadas com casacos mais pesados ou com várias camadas.
Onde eu errei: não experimentei as blusas levinhas com os casacos mais pesados. Algumas realmente não funcionaram e acabaram voltando pra mala quando o frio apertou. Assim como os shorts jeans, que eu não precisava ter levado 5 se só usei 3 (meus preferidos), alguns vestidos não ficaram bem com meia calça de lã por serem muito de verão.
O que funcionou muito bem: as t-shirts brancas de vários modelos. As saias também, por serem mais sóbrias e terem um tecido intermediário em termos de peso – nem tão frescos e nem tão pesados.

Não adianta: você só vai usar as calças que tem vestem maravilhosamente bem. Gente, sério. Levei 6 calças, entre jeans e leggings (não considerando roupa de ficar em casa, tá?), comprei 2. Usei: 4. Metade.
Onde eu errei: Não pensei nos sapatos. Várias das minhas calças eram totalmente impossíveis de usar com bota de cano curto e isso era só o que eu tinha depois que acabou o verão.
O que eu acho: Ninguém precisa de calças que vestem “mais ou menos” no corpo. Nem na mala, nem no armário. Se só tem um tipo de calça que te veste bem, só tenha esse tipo de calça. Mesmo que para isso você precise se livrar de todas as outras do seu armário e ficar com duas calças. Você vai sobreviver.

Quanto mais espaço você tiver, mais você vai encher. Não tenha espaço. Em certo momento, quando mudei de Bed-Stuy para Ridgewood (#newyorker), tive que dividir um armário com meu namorado. E por armário eu digo uma porta, com uma prateleira, um pequeno espaço para pendurar roupas, e só. Nenhuma gaveta. Di-vi-di-do por dois.
Onde eu errei: Pendurei muita coisa no mesmo cabide para economizar espaço e acabei me esquecendo de várias roupas. Muitas delas eram supérfluas mesmo e nem deveriam ter sido levadas, como as blusas fresquinhas, e acabaram escondendo roupas que eu precisava/queria usar.
O que eu acho: Ao invés de dividirem o cabide com os casacos, elas deveriam ter ido para a mala (ou para doação, se estivermos falando do seu closet).

Aprendi nas minhas aulas que se uma peça não combina com outras três ou mais do seu closet, ela tem que sair. Acho muito radical para a realidade, mas para uma mala inteligente ou para um momento em que o armário vai passar por uma mudança profunda, isso é essencial. É brincar de análise combinatória com o que você tem. E aceitar que repetir roupa é ok.
O que eu acho: Repetir roupas e tentar combinações diversas com as peças é muito mais fácil em temperaturas mais baixas. Quanto mais camadas, mais opções. Além disso, as roupas costumam ser mais sóbrias, menos marcantes que as de verão.

Você já deve imaginar. Aqui os acessórios são essenciais. Para mudar a cara, o clima, a adequação, a vida, a luz da roupa. Mas, acredita em mim, você não precisa de mais de três bolsas ou mais de quatro pares de sapato, morando no Brasil principalmente. É legal tem milhares? É. Mas desde que eu cheguei de volta, meus mais de 40 pares de sapatos estão todos dentro de malas e não fiz a menor questão de pegá-los.

No fim, é o seguinte: a gente precisa de muito pouco, mas é legal ter muito. Né? Mas acho que nesse ano vou pensar nas minhas roupas como penso nas pessoas: Mantenho todas que amo, algumas das que eu gosto bastante, me livro do que não me cai bem, não tenho nada por obrigação e pronto. Simples. ;)

My NY Home: O dia que entrou um rato na minha casa.

Essa história aconteceu no dia 6 de junho, mas só agora parei para escrever (estimulada pela sócia-amiga-querida-amada a falar sobre NY).

Se for começar bem do começo mesmo, posso dizer que minha história com esse apartamento no qual me encontro escrevendo e vivendo minha vida novaiorquina começou lá em abril.

Procurando um studiozinho pra morar aqui me apaixonei por esse que vi no Airbnb. Era caro mas bem localizado. Uma fofura com paredes azuis, muitos espelhos, e sofá rosa. Entre o Chelsea, o Flatiron District e o West Village. Quase não consegui fechar, tive que correr atrás do rapazinho alugador de apartamentos, e só consegui alugar a partir do dia 1 de junho (com passagem comprada para o dia 24 de maio). Tudo bem.

Fiquei num hotel perto da escola por uma semana, esperando ansiosamente o momento de me mudar para o studiozinho fofo. Dia 1 chegou, me mudei, carreguei sozinha uma mala de 20kg até o 3o andar. Arrumei as coisas, me abasteci no mercado, descobri a senha do wi-fi e tava em casa.

Foi aí que 5 dias depois, estava eu sendo linda e trabalhadora às 23h sentada no meu sofá rosa com meu computador no colo, quando avisto um movimento estranho. Era um rato. Um. Rato. Na. Minha. Casa.
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Tudo bem que era um tico de rato, um camundongo, mouse. Mas gente. Um rato na minha quitinete novaiorquina. Reparem que eu não tinha onde me esconder.

Vi o rato, o rato me viu e correu pra debaixo do balcão da cozinha. Pânico em mim. Peguei meu celular, a chave de casa e saí do apartamento, óbvio. Desci até o primeiro andar pra procurar ajuda, não tinha janitor, não tinha ninguém, tinha chuva lá fora.

Aí, fiz três coisas ao mesmo tempo. Mandei mensagem pro marido, no Brasil, com o teor “Oqueeufaçotodesesperada”. Liguei pro meu landlord, que não me atendeu, e deixei uma mensagem com “I’M FREAKING THE FUCK OUT”. Encontrei um moço entrando no prédio, pedi ajuda, ele disse que não ia me ajudar, perguntei o que ele achava que eu devia fazer e ele disse que não sabia – legalzão.

Pedi ajuda pra três homens que não podiam/queriam me ajudar. Meu feminismo me deu um tapa na cara e fui lá eu enfrentar o rato sozinha como uma boa princesa de Disney não faria. Entrei no apartamento, calcei minhas galochas, peguei uma vassoura e fui procurar o bicho.

Aqui vale dizer que eu sou total e completamente incapaz de matar qualquer animal, por mais feio e nojento e malvado que ele seja. A minha ideia era levar o ratinho pra fora do apartamento.

Procurei o rato em to-dos os can-tos. Não achei. Como dorme?
Então, resolvi raciocinar. Minhas janelas estavam todas fechadas, ele só poderia ter entrado por um buraco na parede, como bem aprendi assistindo Tom & Jerry. Ele fugiu de mim, provavelmente para o lugar de onde veio – embaixo do balcão da cozinha.

Não consegui ver o que tinha ali embaixo e um possível buraco. Mas aquele era o lugar mais provável. Peguei os edredons velhos e totalmente dispensáveis que tem aqui no apartamento e tampei qualquer saída ou buraco que poderia haver ali. Tomei um lexotan e dormi.

Dia seguinte o landlord veio aqui com um exterminator e fechou os buracos (que realmente existiam ali, sou muito esperta). Eu não fiquei pra ver e fui passar o dia no AMNH deitada embaixo da baleia. Nunca mais vi o rato.

A moral de história: Quando a vida forçar alguém indesejável dentro da sua casa, calce suas galochas e vá resolver. Ele tem mais medo de você, do que você dele.

Lista de Coisas que sinto falta em NY

Essa lista não inclui: gentes.
Essa lista não está em nenhum tipo de ordem de grandeza.

1. Praça São Salvador
2. Feijão
3. Suco de Tangerina Do Bem
4. Minha máquina de nespresso
5. Gata no colo
6. Brunch no Domingo
7. Uísques do meu pai
8. Meus sapatos
9. Fazer a unha do pé
10. Os livros que deixei pela metade
11. Dinheiro
12. Comentar a tv pelo twitter
13. Minhas playlists no iTunes
14. Creme de leite de soja (pois é.)
Update:
15. Gol do fluminense.

Até o final de julho, em construção.