Casas

Nos mudamos pela primeira vez quando eu tinha 6 anos. Minha mãe tinha engravidado da minha irmã. Lembro que eu estava louca para morar em outro lugar e que fiquei mais empolgada com a ideia de um novo apartamento do que de uma irmã mais nova. Não me entenda errado: eu adorava o antigo apartamento, mas já tinha me cansado dali.
Nos mudamos a segunda vez quando eu tinha 13, pouco depois da minha segunda irmã nascer. Pra mim, já não era sem tempo (de irmos morar num lugar novo e de ter outra irmã). Também adorava aquele apartamento e o quanto ele era comprido, mas também cansei dele.
Meus pais são inquietos por mudança e, por duas vezes, fizeram obras em dois dos apartamentos. Foi quando morei por alguns meses na casa da minha avó e por outros meses na casa da minha dinda.
Aos 25, foi minha vez de mudar. Reformamos um apartamento da família, casei, ocupei. Durou menos de dois anos. Arrumei uma trouxa e me mudei de novo, dessa vez pra NY.
E foi lá que, aos 27, achei pela primeira vez a minha casa.

Só tem lar quem já aprendeu a morar em si mesmo.

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Eu nunca fui uma pessoa de sentir saudades. It’s just who I am. Mas não tem outra palavra para descrever o que eu sinto sobre aquele pequeno studio no Chelsea que me abrigou logo quando cheguei na cidade que mudaria a minha vida.

Eram seis lances de escada até o 2R no 94 15th St. Coisas de de NY. O corredor estreitíssimo tinha carpete velho e cheiro de curry, cortesia dos indianos da ponta oposta. A distância entre a minha porta e a do apartamento da frente era de menos de 1m. Lá morava um casal de velhinhos bem velhinhos, que deixavam os sapatos e uma bengala do lado de fora da porta.

A decoração do studiozinho, que seria o pequeno palco de minhas grandes decisões, nada tinha a ver comigo. As paredes azul-bebê, o sofá enorme rosa pink, o fogão antigo e a geladeira pequena seriam talvez as minhas últimas escolhas. Assim como os móveis em madeira clara tipo pinho e o armário de porta sanfonada espelhada.

A cama era dessas bem baixas, com uma moldura em volta do colchão que provocou roxos incríveis nas minhas canelas. O jogo de lençóis deixado pelo landlord foi prontamente trocado por outro que comprei na Bed, Bath and Beyond: roxo, 600 fios de algodão egípcio, do jeito que eu amo. Era o melhor lugar da casa. Ficava na extremidade esquerda do apartamento, onde duas janelas grandes, sem cortina, ameaçavam a qualidade do meu sono. A verdade é que a claridade nunca me incomodou e eu até acostumei com ela, mas tampava meu rosto com um pano qualquer quando a manhã chegava.

Em frente à cama, uma televisão no alto da parede, quase no teto, em total desacordo com a minha miopia, vivia desligada. Em frente à cama, uma mesa de madeira onde eu deixava meu computador e meu material escolar, e uma cadeira que tentava disfarçar seu desconforto com uma almofada safada e encardida. Fiquei pouco ali, o sofá era uma melhor estação de trabalho. O sofá, aliás, dividia a casa e com a ajuda do armário formava um corredor até a cozinha.

Na cozinha, as louças estranhas que em pouco tempo se tornariam familiares. Para ela comprei facas novas e um único copo. Na cozinha, uma a máquina de lavar louça que eu nunca liguei e o fogão que eu nunca soube ligar. O muito exigido micro-ondas ficava acima da geladeira quase vegetariana que eu mantinha, que por sua vez, era “porta com porta” com o banheiro.

No banheiro, limpei uma privada pela primeira vez na vida e, vejam só, minha mão não caiu. Também entupi a pia e paguei por isso. No banheiro, de forma quase catártica, desinfetei uma banheira usei, por muitas vezes e pelo tempo que queria. Comprei toalhas novas e felpudas (roxas!) que, assim como os lençóis e as facas, ficaram em NY depois de morarem comigo em mais dois apartamentos.

Foi nesse apartamento que tive que aprender a conviver comigo mesma e só. Poderia dizer que conheci minhas limitações, mas foi o contrário. Percebi que eu era muito maior, muito mais capaz, muito mais livre e independente do que sempre me imaginei ser.

Ocupar esse apartamento foi como ocupar meu próprio vazio. Arrumei, desarrumei. Sujei, limpei. Aprendi coisas novas, mudei de opinião. Criei uma rotina e não mantive. Enchi de trabalho, de comida, de lazer. E, quando já estava pronta, recheei de amor.

eu e a melancolia da escada de incêndio da "minha" janela

eu e a melancolia da escada de incêndio da “minha” janela

Se vestir é um exercício de autoconhecimento

Esse texto foi originalmente postado (por mim) no Modices.

O provador pode ser um lugar muito catártico.

Sempre que falo de roupa (porque quem sou eu para falar de moda), insisto em dizer que se vestir é um exercício frequente, e às vezes bem duro, de autoconhecimento. Mais do que saber o que cai bem no seu corpo, escolher um look é um movimento de reconhecimento. Porque a gente muda. Muda toda hora de convicções, de opiniões, de valores. Constantemente estamos querendo diferentes coisas de nós mesmas e exigindo diferentes resultados de nossos esforços.

Reconhecer-se na frente do espelho e entender quem é essa mulher hoje é um grande passo para o nosso empoderamento. Entender o que espera de si mesma é importante e é com a nossa roupa que a gente começa a passar essa mensagem para o mundo: “Essa sou eu, do jeito que eu quero ser, do jeito que eu quero que você me veja”. Consegue ver o poder nessa frase? Sim? Pena não ser tão simples.

Ainda entramos em um provador querendo ser mais magras, mais altas, mais bronzeadas. Ainda procuramos nas araras roupas que consertem um pedaço do nosso corpo ou disfarcem uma parte do que somos. Por mais bem resolvidas que sejamos, por mais feministas que nos tornemos, jamais conseguiremos fazer uma escolha (de moda) totalmente livre de julgamentos enraizados em nós por anos e anos de dominação patriarcal. Mas tudo bem, é aos poucos que a gente vai desconstruindo os mitos que criamos sobre nós mesmas.

Esses dias me apaixonei por um vestido que qualquer revista ou “entendida de moda” me aconselharia a não levar. Afinal, coloque-se em seu lugar, Nina, um vestido longo em formato de t-shirt gigante não é para meninas de 1m60. “Você é baixa demais”, “você é pequena demais”, “você é magra de menos” para sair ilesa usando esse vestido. Comprei mesmo assim. Afinal, eu nunca vou deixar de ser pequena e não existe roupa mágica que vai me dar centímetros de pernas. O importante é que vesti a roupa e me reconheci no espelho. Me reconheci como livre.

Rotina

Abri os olhos às 8h. Peguei o celular e mandei uma mensagem para confirmar a reunião às 10h30. Confirmada. “Que frio está nesse quarto, gente”. Tentei levantar e ele não deixou. Me abraçou e provocou mais 40 minutos de sono profundo e quentinho, como ele faz todos os dias. Abri os olhos de novo. Estou atrasada.

Levantei, fui no banheiro, fiz xixi, escovei os dentes. Saí do quarto. Os gatos correram para a porta. Peter miou e se esfregou nas minhas pernas como faz todos os dias. Dexter me seguiu até a cozinha e tive que pedir para ele me esperar na sala, como fazemos todos os dias.

Coloquei a garrafa de água para encher, que meu amor deixa vazia toda madrugada, em cima da pia. Botei ração e água para os gatos. “Que fome, Dex!”. Liguei a máquina de espresso. Troquei de roupa. Fui limpar a caixinha dos gatos, Peter veio atrás reclamar, como ele faz todos os dias. Joguei os cocôs na lixeira do corredor. Lavei as mãos. Esqueci a água enchendo, merda! Faço isso todo dia.

Guardei a garrafa transbordada na geladeira. Lavei minha xícara do dia anterior. Coloquei um espresso para fazer, escolhi o mais forte. Peter ouviu a máquina funcionando e veio correndo ver, como ele faz todos os dias. Ama café, esse gato. Levei a xícara até o espelho e deixei esfriar um pouco, enquanto me maquiava. BB Cream, blush e rímel. Tá bom. Prendi o cabelo e lembrei que no domingo minha vó tinha dito que preferia ele solto. Soltei. Tá mais ou menos.

Tomei meu café, que quase esfriou demais, enquanto lia meus emails no celular. Tinham poucos emails, eles costumam chegar depois de meio dia. Resolvi ver o que tinha no snapchat, ri um pouco. Estava na hora de ir. Meu deus, como está chovendo. Troquei a sapatilha por uma bota. No caminho, poças incríveis. Atravessei a feira que tem toda terça. Como está cheia! Será que as pessoas sabem que está chovendo horrores? Me distraí com a poça. Não vi a Kombi. Bati a cabeça na porta da Kombi. Merda.

Levo 7 minutos andando até a reunião. Cheguei 2 minutos atrasada. Resolvi uma pá de coisas. Durou até quase 13h. Comprei comida pra mim e pro meu amor. Andei de volta para casa. Parou de chover. Home sweet home office. Peter me recebeu na porta, como faz todos os dias, esse gato-cachorro. Meu amor não estava. Será que ele tinha compromisso? “Cadê você? Te trouxe salpicão!”. Coloquei a comida na geladeira. Coloquei roupa na máquina de lavar.

Amor chegou 2 minutos depois. Tinha ido ao banco. Disse que eu tinha lido sua mente, estava louco por esse salpicão. Fiquei feliz. Sentamos para comer. Coloquei The Nanny no Netflix, como faço todo dia. É para evitar comer e trabalhar ao mesmo tempo. Não assisti. Meu amor me contou do dia dele enquanto almoçávamos. Me disse que tinha gravação mais tarde. Eu não lembrava. Ele só volta pra casa depois de 1 da manhã. Merda.

Terminamos de comer. Guardei tudo. Entrei numa bolha de concentração e voltei a trabalhar. Dexter veio e deitou do meu lado, como ele faz todos os dias. Estourou a bolha. “Oi, cara!” Cocei o queixinho dele, como ele gosta. 16h30. Vou tomar mais um café. Lá vem o Peter de novo. Meu deus, como essa máquina de lavar é barulhenta.

Aproveito o break e vou ver a quantas anda meu outro blog. Pergunto pra Liv, minha sócia de lá, qual nossa programação de post pra semana. Ela sempre sabe. Ela me pergunta como eu faço espinafre. Eu explico. Também conto como fazer omelete de espinafre e queijo de cabra. Me sinto subitamente adulta. “Acho que vou jantar isso hoje” – dizemos as duas.

Meu amor precisa ir. Que ruim saber que só o vejo amanhã. Beijo. Volto pra bolha de concentração. A máquina de lavar apita pra avisar que as roupas já estão secas. Estoura a bolha. Todo dia esqueço as roupas secas na máquina. Hoje não. Tiro tudo, dobro, guardo. Vejo que a pilha de roupas secas e dobradas de ontem ainda estão empilhadas. Vai ficar pra amanhã. 19h30. Deu de trabalho.

Será que tem fase nova no Candy Crush? Faz mais de uma semana que eu zerei. Oba, tem! Rapaz, que fase difícil. Estou com fome. E preguiça. Nada de omelete. Sanduíche mesmo. E um pedaço de chocolate. Maldita páscoa. Acho que vou ver um filme. “Bora, Netflix me sugere uma coisa boa”. Porra, Netflix. Vou fazer uma máscara no cabelo. Tomo banho. Passo a máscara. Vinte minutos é tipo uma eternidade. Ponho um episódio de Friends na tevê do quarto, mas fico mexendo no celular e só ouço. Deu 20. Tiro a máscara, me seco. Estou menstruada. Preciso de um absorvente. Penso novamente sobre o copinho coletor. Será que testo na próxima?

Vou ver um filme então. Netflix. Esse não, esse não, esse não. Popcorn Time. Esse não, esse vou ver com meu amor, não, não. Netflix de novo. Filmes Independentes. “A vida acontece”, vou ver esse. Que fil-me cha-to. Dexter está miando na porta. Saio do quarto no meio do filme. “O que você quer Dexzinho da mamain?”. Quer entrar no quarto. Não deixo. Peter veio ver o que estava acontecendo. Sento no chão pra brincar com eles. Brinco. Esmago. Faço carinho. Eles se cansam de mim e vão embora.

Volto pro quarto. O filme acabou. Nem vi o final. Friends de novo. Vou dormir. Lembro que a faxineira chega amanhã às 8h. Acerto o despertador. Dou uma olhadinha no Instagram. Tomo um comprimido de melatonina, 10mg. Fechei os olhos.

Desenhos frustrados

Tava cá com meus botões quando lembrei de uma história da minha infância.

Aos seis anos, eu era uma pequena criança precoce e pedante em se tratando de ler e escrever. Afinal, antes mesmo de começar o C.A. (oi classe de alfabetização) eu já lia meus livrinhos e escrevia minhas histórias, do jeito que mamain ensinou.

Porém, desenhar era uma eterna frustração. A facilidade que eu tinha para escrever e descrever os cenários fantásticos da minha imaginação era inversamente proporcional à minha habilidade de desenhar no papel o que eu queria. Mamain conta da vez que eu queria desenhar uma tartaruga. Folhas e mais folhas, rabiscos e mais rabiscos, que terminaram com a criança chorando e berrando enquanto apontava para a folha: “ISSO NÃO É UMA TARTARUGA”.

Que morte horrível.

Nessa época, eu tinha uma amiga que sabia desenhar muito bem e eu a admirava imensamente por causa disso. Não achava injusto, afinal, o pai dela era desenhista e eu repetia para mim mesma que, nesse caso, ela tinha mais é que desenhar muito mesmo. Não a perdoaria se fosse o contrário. Acabei aceitando que a vida era assim. Achava meus desenhos horríveis e tentava aprender com os dela. Desenvolvi também uma pequena obsessão em estudar os desenhos das crianças mais velhas e tentar copiar alguns elementos nos meus – os que eu conseguia, claro. Mas tinha aceitado a situação.

Até que, em um dia como outro qualquer, enquanto a turma toda fazia seus desenhinhos, a professora para a aula e diz: “Turma, parem o que estão fazendo e olhem para cá. Olhem só o que o Maurício descobriu”. Ela segurava o coitado do Maurício, tímido que só, enquanto balançava o desenho dele no ar: “Vocês conseguem ver o que ele descobriu?”

Eu não vi. Até porque ele não tinha nenhum direito de saber desenhar, já que o pai dele tinha uma profissão qualquer tipo engenheiro, sei lá. E então ela disse: “Olhem o braço! Ele descobriu que o braço não é apenas um traço e sim dois traços que se encontram em cinco dedos que formam uma mão! Viram só?”.

Mermão. Acho que foi a primeira vez que eu realmente fiquei puta da vida na vida. É claro que eu sabia que o braço não era um traço! Eu não sei desenhar dessa forma porque você não me ensinou, ô sua maldita. Eu sacudia minhas amiguinhas e falava: “VOCÊ SABIA QUE O BRAÇO ERA ASSIM NÃO SABIA? TODO MUNDO SABIA, NÃO SABIA? GENTE, TODO MUNDO SABE QUE O BRAÇO NÃO É UM TRAÇO, NÃO SABE?”. Ninguém ligou pra mim. Ninguém entendeu minha indignação frente aquele absurdo.

Cara, que revolta. Fui putadavida pro lado do menino e mandei (sim) ele me ensinar como fazia aquilo. Aprendi e quando fui voltar pro meu lugar tinha uma outra pessoa sentada lá. Ainda tomada por uma raiva sem tamanho, me joguei em outra carteira para esperar o dia acabar. Foi então que a professora avisou que uma das meninas tinha perdido a tesoura da minnie (aquela do “eu tenho, você não tem”) e que era pra gente parar tudo o que estava fazendo para procurar.

Eu olhei e a tesoura estava na parte de dentro daquela carteira alheia que eu tinha ocupado. E, ainda tomada por uma indignação que não dissipava, fechei a carteira, gritei “aqui não está!” e deixei o caos se instalar naquela turma, donde eu apenas observei com o prazer de que eu tinha uma informação que ninguém mais possuia.

No dia seguinte, minha vó me colocou na aula de desenho, encerrando toda a minha carreira de déspota (e quem sabe não me deixando explorar esse talento).

Não me encaixo em lugar algum

Esse não é um post depressivo de quem não se vê. Esse não é um post de recaída pré-adolescente. Esse é um post sobre as pessoas e seus castas próprios, sobre a mania que têm de formar pequenos grupos com regras de “pertencimento” firmes em fundações fantásticas.

Nunca fui uma pessoa particularmente expansiva. Pelo contrário. Gosto da posição de observadora, do meu canto, das longas conversas comigo mesma, da companhia de poucos. Para mim, a maior liberdade que existe é se sentir confortável com o silêncio. O ser sociável apareceu em mim aos 15 anos, porque se isolar do mundo é fácil, mas é chato. Ainda sou séria, passo quilômetros da personalidade “bubbly”, mas pelo menos sei conversar e tenho genuíno interesse nas outras pessoas. Yay, me!

Mas, depois de ter passado tanto tempo dentro de mim, desenvolvi um eu muito próprio – e pode ir parando já, se você acha que isso é redundante. Quando comparo meu eu com o de outras pessoas, o meu parece uma colagem louca e nonsense de gostos e desgostos, hábitos e preferências que não combinam entre si. Perdi o bonde do pertencimento. Não sou hipster, não sou nerd, não sou careta, não sou periguete, não sou a menina típica da zona sul, não sou fitness, não sou dona de casa, não sou mulher-guerreira-trabalhadora, não sou personagem de comercial de margarina, ou de absorvente ou de dia das mães.

Poderia aqui dizer que “pertenço um pouco a cada lugar”, “me encaixo em todos os grupos”, “flutuo em todos os castas”. É o cacete. A verdade é que eu não encaixo em lugar nenhum. E não por minha causa.

Gosto de Game Of Thrones, de XMen, de zumbis, de tecnologia de ponta, de entender sistemas, de jogos de lógica. Mas não posso ser nerd, simplesmente porque não sou obcecada por nenhum desses assuntos. Se não li todos os livros de GoT ou se meu conhecimento sobre zumbis se resume a The Walking Dead ou se eu sei HMTL mas não sei Java, well not good enough.

E isso vale para todas as categorias. Gosto de Pollock e Degas, tenho conhecimento básico de história da arte, mas não fui a Inhotim.

Gosto de Ella Fitzgerald, Of Monsters and Men, Los Hermanos, DMB e Johnny Cash mas também gosto de Miley Cyrus, Kelly Clarkson, Beyoncé e Justin Timberlake. Adoro um monte de banda, mas não tenho o menor interesse em ir no Coachella.

Gosto de brigadeiro, coxinha e bacon, mas (na mesma proporção) gosto de rúcula, edamame e chá de capim limão com gengibre.

Sei falar inglês, sei ler em espanhol, mas em francês só sei contar até 5 e tudo que aprendi de alemão já me esqueci.

Gosto de futebol, baseball e tênis, mas não lembro nomes de jogadores, estatísticas e perco vários jogos por estar fazendo outra coisa.

Gosto de gatos, baleias, ursos, cachorros, mas quando criança não gostava de bicho algum.

Gosto de roupa, de estética, de estudar e entender o mercado de moda. Mas acho história da moda um porre, esqueço o nome dos estilistas e simplesmente detesto desfile.

Tenho 7 tatuagens, mas nenhuma com mais de 5cm.

Li Clarice e Jane Austen antes dos 20 anos, mas não lembro uma palavra do que li. Li muita coisa, mas meu rol de favoritos é composto por Harry Potter, The Perks of Being a Wallflower e a biografia do Agassi.

Tenho convicções feministas, não suporto que as coisas sejam categorizadas por gênero, sou pro-choice e pro-love, mas acho que meninas são meninas e meninos são meninos (mesmo que seja confuso).

Uso por volta de 8 produtos de beleza todos os dias, mas não faço as unhas no salão há quase um ano. Adoro maquiagem, mas tenho quase um prazer secreto em não pentear meus cabelos. Não resisto a um unicórnio e fofurinhas em geral, mas gosto de beber uísque, single malte.

Well, not good enough para pertencer a qualquer grupo social.

EPÍLOGO (porque senti necessidade):

É verdade que eu gosto das pessoas. Gosto dos defeitos, das particularidades, de entender os porquês de cada um. Gosto de saber o que para ou move alguém, gosto de ouvir (talvez seja minha coisa preferida). Mas não gosto e não sei conviver com os personagens criados para pertencer aos grupos, com personalidades que parecem escolhidas em catálogo, escolhas milimetricamente planejadas para parecerem espontâneas.

Pior que isso, não aguento os falsamente alternativos, os falsamente livres. Os moderninhos da Comuna, com suas roupas iguais, mas compradas em uma feirinha “única”, com suas bandas que ninguém conhece, a não ser todos os que você conhece, com suas festas e rodas secretas que todo mundo sabe onde acontecem, com suas piadas internas e suas referências que apenas “entendedores entenderão” espalhadas e copiadas à exaustão na internet, com os mesmos filmes e livros preferidos e dissecados a fundo, com as mesmas tendências e sequências de pensamento. Os moderninhos que se acham um degrau acima na escala de evolução dos “coxinhas” que vestem polo ralph lauren em seus empregos formais e ouvem sertanejo porque sim, e que malham todos os dias e viajam para Miami. São todos iguais.

E me cansam profundamente.

Para queimar os sutiãs

Disclaimer: Apesar do título, esse post não tem nada de feminista per se.

Há alguns meses, vinha sentindo que minhas roupas não me vestiam mais de forma que me agradasse. Tinha alguma coisa errada. Podia ser comigo e com os kgs a mais que eu estou tão não-orgulhosamente cultivando. Podiam ser as roupas, já que vez em quando eu me canso delas de sobremaneira e elas simplesmente #nãomerepresentam. Podia ser a TPM. Podia ser mercúrio retrógrado. Não era.

Levei um tempo e, muita insatisfação depois, descobri que o problema estava no sutiã. Não no sujeito como objeto de vestimenta, eram especificamente os meus sutiãs. Há anos já havia aposentado meus sutiãs de alça, achando que esse era o core do problema. Fiquei um tempo bastante satisfeita com a coleção de tomaraquecaia (seja lá qual for o plural dessa palavra), mas enfim eles já não eram mais bem-vindos no meu corpo ou no meu armário ou por debaixo das minhas blusas.

“Que coisa horrorosa” – era o que eu pensava quando me olhava no espelho, com roupa ou só de lingerie. Tentei trazer de volta à vida meus sutiãs de alça e “meu deus do céu ainda não é isso que que tá havendo nesse armário acho que são as roupas não são as roupas esse sutiã não tá certo vou comprar um novo que mais que tem aqui nesse armário?”. Sabe?

No armário tinham dois, leia-se dois, sutiãs diferentes. Diferentes dos outros seis ou sete. Eles eram sem aquele bojo grosso, sem aquele formato que quando você tira o sutiã o peito parece que continua lá, sem push-up, sem potenciais ilusões de um silicone imaginário. Eles eram… normais. Vesti e (insira aqui uma imagem de iluminação divina).

Minhas roupas voltaram ao normal, voltei a me sentir feminina de sutiã, comprei mais alguns do mesmo estilo, passei o conhecimento para minhas irmãs que não só me apoiaram como também baniram os sutiãs-bola – é assim que eu vou chamar – das suas vidas.

Porque assim, e aqui vem o papo feminista que eu prometi que não tinha no post, quem teve a ideia estúpida de padronizar nossos peitos? Nossos peitos, gente. As pessoas realmente acham bonito todo mundo andar com o mesmo formato de peito da rua? Como se a única variação existente fosse pequeno, grande e médio? Imagino que deva existir mais variedade de peito do que de nariz por aí.

É engraçado ver que tem muita mulher que se orgulha dos seios naturais, sem silicone, mas nem percebe que todo dia veste uma armadura que repudia o formato natural dos peitos. Prefiro o silicone. Aliás, prefiro tudo o que me faz (te faz, nos faz) sentir mais bonita – e se isso é o sutiã bola, tudo bem.

Só acho existe um reflexão que toda mulher deveria fazer sempre, antes de qualquer escolha: é isso que eu acho mais bonito ou é o que o mundo me disse ser o mais adequado?

Como sobrevivi 3 meses e 3 estações com 2 malas

ou “Como limpar o seu closet”.

Sempre fui do tipo de pessoa de armário cheio, farto, entupido. Quando me mudei da casa dos meus pais, transformei um quarto inteiro em closet. Enchi. Afinal, o espaço estava lá para ser preenchido. Quando acabava o espaço, eu fazia um bazar. Fiz vários, antes mesmo de me mudar, porque a verdade é que sou super desapegada das minhas roupas. Minhas amigas se fartaram em vários deles – o que acho ótimo, porque não “perco” nada.

Aí veio maio e NY, e o momento de fazer uma mala para três meses no verão. Foi mole. Tinha dinheiro guardado, programado para gastar com compras. Fiz uma mala pequena, semi-vazia, que foi levinha para minha temporada no verão da melhor cidade do mundo. Passou o verão. Voltei ao Rio com a mala mais pesada.

arrumando-mala

Plot twist. Vinte dias depois voltei para NY, dessa vez para pegar o resto do verão e todo o outono, com um hint de inverno. Dessa vez não tinha dinheiro para comprar nada além do básico (e aqui pode incluir cerveja, cada um com suas prioridades). Não tinha como fazer uma mala inteligente e, ao mesmo tempo, estilosa. Digamos que fiz uma mala esperta.

Quando passou o super calorzão de agosto, eu pude ver claramente os erros e acertos da minha mala. Mas sobrevivi, com duas malas, em temperaturas que foram de 40º a -6º, sem passar roupa nenhuma vez, lavando poucas vezes e não comprando quase nada (a não ser uma bota e uma coisa e outra no Beacon’s Closet) até a última semana por lá. Tudo por causa da mala esperta, que poderia ter sido ainda mais inteligente.

O mais interessante é que depois eu aprendi nas minhas aulas de Consultoria de Imagem e Personal Shopper que eu fiz nada mais que um armário base, uma coisa que todo mundo deveria ter. Segundo minha professora de PS, você só precisa de 13 peças por estação. E ó, é verdade. Eu comprovei.

Por isso, acho que as manhas da mala inteligente podem ser muito bem repetidas nos nossos closets entupidos. Percebe só:

Como cheguei com 40º e sabia que toleraria temperaturas abaixo de zero, quase todas as minhas roupas de verão poderiam ser transferidas para o inverno. As saias podiam ser usadas com meia-calça, alguns shorts também, assim como os vestidos. Blusas mais leves podiam ser colocadas com casacos mais pesados ou com várias camadas.
Onde eu errei: não experimentei as blusas levinhas com os casacos mais pesados. Algumas realmente não funcionaram e acabaram voltando pra mala quando o frio apertou. Assim como os shorts jeans, que eu não precisava ter levado 5 se só usei 3 (meus preferidos), alguns vestidos não ficaram bem com meia calça de lã por serem muito de verão.
O que funcionou muito bem: as t-shirts brancas de vários modelos. As saias também, por serem mais sóbrias e terem um tecido intermediário em termos de peso – nem tão frescos e nem tão pesados.

Não adianta: você só vai usar as calças que tem vestem maravilhosamente bem. Gente, sério. Levei 6 calças, entre jeans e leggings (não considerando roupa de ficar em casa, tá?), comprei 2. Usei: 4. Metade.
Onde eu errei: Não pensei nos sapatos. Várias das minhas calças eram totalmente impossíveis de usar com bota de cano curto e isso era só o que eu tinha depois que acabou o verão.
O que eu acho: Ninguém precisa de calças que vestem “mais ou menos” no corpo. Nem na mala, nem no armário. Se só tem um tipo de calça que te veste bem, só tenha esse tipo de calça. Mesmo que para isso você precise se livrar de todas as outras do seu armário e ficar com duas calças. Você vai sobreviver.

Quanto mais espaço você tiver, mais você vai encher. Não tenha espaço. Em certo momento, quando mudei de Bed-Stuy para Ridgewood (#newyorker), tive que dividir um armário com meu namorado. E por armário eu digo uma porta, com uma prateleira, um pequeno espaço para pendurar roupas, e só. Nenhuma gaveta. Di-vi-di-do por dois.
Onde eu errei: Pendurei muita coisa no mesmo cabide para economizar espaço e acabei me esquecendo de várias roupas. Muitas delas eram supérfluas mesmo e nem deveriam ter sido levadas, como as blusas fresquinhas, e acabaram escondendo roupas que eu precisava/queria usar.
O que eu acho: Ao invés de dividirem o cabide com os casacos, elas deveriam ter ido para a mala (ou para doação, se estivermos falando do seu closet).

Aprendi nas minhas aulas que se uma peça não combina com outras três ou mais do seu closet, ela tem que sair. Acho muito radical para a realidade, mas para uma mala inteligente ou para um momento em que o armário vai passar por uma mudança profunda, isso é essencial. É brincar de análise combinatória com o que você tem. E aceitar que repetir roupa é ok.
O que eu acho: Repetir roupas e tentar combinações diversas com as peças é muito mais fácil em temperaturas mais baixas. Quanto mais camadas, mais opções. Além disso, as roupas costumam ser mais sóbrias, menos marcantes que as de verão.

Você já deve imaginar. Aqui os acessórios são essenciais. Para mudar a cara, o clima, a adequação, a vida, a luz da roupa. Mas, acredita em mim, você não precisa de mais de três bolsas ou mais de quatro pares de sapato, morando no Brasil principalmente. É legal tem milhares? É. Mas desde que eu cheguei de volta, meus mais de 40 pares de sapatos estão todos dentro de malas e não fiz a menor questão de pegá-los.

No fim, é o seguinte: a gente precisa de muito pouco, mas é legal ter muito. Né? Mas acho que nesse ano vou pensar nas minhas roupas como penso nas pessoas: Mantenho todas que amo, algumas das que eu gosto bastante, me livro do que não me cai bem, não tenho nada por obrigação e pronto. Simples. ;)