Desenhos frustrados

Tava cá com meus botões quando lembrei de uma história da minha infância.

Aos seis anos, eu era uma pequena criança precoce e pedante em se tratando de ler e escrever. Afinal, antes mesmo de começar o C.A. (oi classe de alfabetização) eu já lia meus livrinhos e escrevia minhas histórias, do jeito que mamain ensinou.

Porém, desenhar era uma eterna frustração. A facilidade que eu tinha para escrever e descrever os cenários fantásticos da minha imaginação era inversamente proporcional à minha habilidade de desenhar no papel o que eu queria. Mamain conta da vez que eu queria desenhar uma tartaruga. Folhas e mais folhas, rabiscos e mais rabiscos, que terminaram com a criança chorando e berrando enquanto apontava para a folha: “ISSO NÃO É UMA TARTARUGA”.

Que morte horrível.

Nessa época, eu tinha uma amiga que sabia desenhar muito bem e eu a admirava imensamente por causa disso. Não achava injusto, afinal, o pai dela era desenhista e eu repetia para mim mesma que, nesse caso, ela tinha mais é que desenhar muito mesmo. Não a perdoaria se fosse o contrário. Acabei aceitando que a vida era assim. Achava meus desenhos horríveis e tentava aprender com os dela. Desenvolvi também uma pequena obsessão em estudar os desenhos das crianças mais velhas e tentar copiar alguns elementos nos meus – os que eu conseguia, claro. Mas tinha aceitado a situação.

Até que, em um dia como outro qualquer, enquanto a turma toda fazia seus desenhinhos, a professora para a aula e diz: “Turma, parem o que estão fazendo e olhem para cá. Olhem só o que o Maurício descobriu”. Ela segurava o coitado do Maurício, tímido que só, enquanto balançava o desenho dele no ar: “Vocês conseguem ver o que ele descobriu?”

Eu não vi. Até porque ele não tinha nenhum direito de saber desenhar, já que o pai dele tinha uma profissão qualquer tipo engenheiro, sei lá. E então ela disse: “Olhem o braço! Ele descobriu que o braço não é apenas um traço e sim dois traços que se encontram em cinco dedos que formam uma mão! Viram só?”.

Mermão. Acho que foi a primeira vez que eu realmente fiquei puta da vida na vida. É claro que eu sabia que o braço não era um traço! Eu não sei desenhar dessa forma porque você não me ensinou, ô sua maldita. Eu sacudia minhas amiguinhas e falava: “VOCÊ SABIA QUE O BRAÇO ERA ASSIM NÃO SABIA? TODO MUNDO SABIA, NÃO SABIA? GENTE, TODO MUNDO SABE QUE O BRAÇO NÃO É UM TRAÇO, NÃO SABE?”. Ninguém ligou pra mim. Ninguém entendeu minha indignação frente aquele absurdo.

Cara, que revolta. Fui putadavida pro lado do menino e mandei (sim) ele me ensinar como fazia aquilo. Aprendi e quando fui voltar pro meu lugar tinha uma outra pessoa sentada lá. Ainda tomada por uma raiva sem tamanho, me joguei em outra carteira para esperar o dia acabar. Foi então que a professora avisou que uma das meninas tinha perdido a tesoura da minnie (aquela do “eu tenho, você não tem”) e que era pra gente parar tudo o que estava fazendo para procurar.

Eu olhei e a tesoura estava na parte de dentro daquela carteira alheia que eu tinha ocupado. E, ainda tomada por uma indignação que não dissipava, fechei a carteira, gritei “aqui não está!” e deixei o caos se instalar naquela turma, donde eu apenas observei com o prazer de que eu tinha uma informação que ninguém mais possuia.

No dia seguinte, minha vó me colocou na aula de desenho, encerrando toda a minha carreira de déspota (e quem sabe não me deixando explorar esse talento).

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