Por um dia 8 de março mais responsável

A minha relação com o dia internacional da mulher é sempre dividida. Por um lado, eu acho que é um dia para simbolizar, reforçar e valorizar a luta contra as mazelas do patriarcado. É um dia que nós feministas podemos usar para chamar ainda mais atenção às questões que discutimos diariamente e para colocar em pauta pública o que passamos o ano inteiro dizendo que “precisamos conversar a respeito”.

Por outro lado, eu preferiria passar o dia 8 de março trancada em casa, com tevê desligada e bem longe da internet. Porque eu tenho vontade de chorar de raiva e meu estômago se contorce (mesmo) quando vejo mercados e indústrias usarem essa data para reforçar estereótipos e clichês sobre o feminino. Estereótipos esses que passamos os outros 364 dias do ano lutando contra, fazendo trabalho de formiguinha, educando homens e mulheres a nos olhar de outra forma. É um desserviço.

pqp, Fast Shop

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Basta cinco minutos no Facebook durante essa semana, para perceber que ainda estamos muito longe de sermos entendidas além do papel que a sociedade nos impõe. Veja a página 8 de março da depressão e se assuste.

Em geral, a forma como a indústria comercial usa o dia 8 de março é, no mínimo, irresponsável. E toda suposta homenagem, recebida e postada, acaba por mascarar todo do real propósito do dia.

São incontáveis campanhas, marcas e produtos que ao “exaltar” as mulheres acabam reforçando que somos todas iguais e que, unicamente por termos nascido com uma vagina somos ou devemos ser o que quer que seja. É no mínimo bizarro que em 2015 ainda tenhamos que dizer: “Não, nem todas queremos ser ou somos mães, nem todas gostam de chocolate, nem todas têm o sonho de achar um príncipe e casar, nem todas somos delicadas, nem todas somos fortes guerreiras, nem todas somos sexy, nem todas gostam de fazer compras, nem todas dão pitizinho na TPM, nem todas são ciumentas, nem todas falam mal da amiga…”

pqp, Use Huck

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Como falei no meu primeiro post do ano e volto a repetir aqui:

– Nenhuma mulher tem a obrigação de ser ou fazer qualquer coisa simplesmente pelo fato de ser mulher. Nenhuma mulher precisa ser mãe, ou usar saia, ou ser guerreira, ou ser mil e uma utilidades, ou casar, ou ser feminina, ou ter cabelo comprido, ou ser delicada, ou ser forte. Nenhuma mulher precisa ser bonita, ou malhar, ou se preocupar com a alimentação, ou cuidar de ninguém, ou usar brinco, ou gostar de rosa, ou gostar de homem. Nenhuma mulher precisa fazer alguma coisa que não deseja, simplesmente pelo fato de ser mulher.
(…) Nenhuma regra social deve impor algum dever à mulher, se a regra for baseada no argumento de que ela é mulher.

Parem e pensem, por favor. Desconstruir essa persona criada para representar mulheres do mundo todo é preciso. Chega de clichês imbecis. Chega de estupidezes mil travestidas de “opiniões” que dizem como devemos ser e como devemos usar nosso próprio corpo.
É preciso que tenhamos espaço e apoio para ser quem bem desejamos sem que tenhamos que cumprir tabelas pré-estabelecidas por uma sociedade atrasada e preconceituosa.

Nós somos a soma do que aprendemos com erros e acertos, com a nossa vida e com a vida das pessoas que nos criaram, nos amaram e nos machucaram. Todos nós somos assim. Todos nós temos defeitos, qualidades e nuances próprias. Todos temos desejos únicos. E não merecemos ser colocadas na mesma cesta de personalidade simplesmente por termos nascido com vaginas.

No dia 8 não me dê flores. Se puder, me dê cinco minutos do seu tempo para ouvir (ou ler) a respeito da causa feminista. E uma coxinha, também quero uma coxinha.

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3 comentários sobre “Por um dia 8 de março mais responsável

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