Em 2015, ninguém “tem que” nada

Quando o assunto é “regra”, sempre fui a favor da máxima que diz que ela deve ser cumprida. Fui criada assim. Apesar de pais bastante liberais e que fizeram questão de estimular meu poder de argumentação (para orgulho e desespero deles), toda minha infância e adolescência foi baseada nas obrigações que tinha que cumprir, no que era meu direito e no que era meu dever. Por mais que meus pais permitissem que os deveres diários fossem questionados, jamais abriram mão de dizer: “Você pode discordar e até ter razão, mas obrigação é obrigação”.

rules

Levou alguns anos, algumas dores e inconsistências, um divórcio e toda a sensação de independência, para que eu finalmente lesse a frase “toda regra existe para ser quebrada” e não achasse uma total estupidez. Ainda não concordo com ela, mas tudo mudou.

Posso dizer que a coisa mais valiosa que aprendi em 2014 é que regras existem para serem repensadas, atualizadas e reformadas sempre que possível. Quanto mais você entende o porquê, o contexto e o objetivo de uma regra, mais você é capaz de quebrá-la com maestria, educação e gentileza.

2014 foi o ano em que escolhi minhas causas a defender e amar, com unhas, dentes e paciência. Ainda não sei o que veio antes: a paixão pelas causas ou o novo entendimento das regras, mas sem dúvida as duas coisas estão diretamente ligadas.

Em geral, as regras existem para que possamos viver de forma organizada e justa, para que tenhamos uma orientação na hora de fazer escolhas que funcionem melhor, para nós e para a sociedade. Mas inúmeras delas foram criadas em fundamentos que, hoje, já não fazem sentido algum. O que é antigo e ultrapassado deve ser discutido e enfrentado.

Em 2014, aprendi que:
– Nenhuma mulher tem a obrigação de ser ou fazer qualquer coisa simplesmente pelo fato de ser mulher. Nenhuma mulher precisa ser mãe, ou usar saia, ou ser guerreira, ou ser mil e uma utilidades, ou casar, ou ser feminina, ou ter cabelo comprido, ou ser delicada, ou ser forte. Nenhuma mulher precisa ser bonita, ou malhar, ou se preocupar com a alimentação, ou cuidar de ninguém, ou usar brinco, ou gostar de rosa, ou gostar de homem. Nenhuma mulher precisa fazer alguma coisa que não deseja, simplesmente pelo fato de ser mulher.

– Ao mesmo tempo, aprendi que toda mulher também tem o direito de querer ser mãe, dona de casa, de paparicar o marido, de cozinhar e cuidar da família. Tem o direito de só se achar bonita de saia, de batom vermelho e cabelo arrumado. E, se puder, tem o direito de não querer trabalhar. Ninguém é menos feminista por causa disso. Nenhuma regra social deve impor algum dever à mulher, se a regra for baseada no argumento de que ela é mulher.

– Em termos de consultoria de imagem, aprendi que devemos abrir mão de palavras castradoras de auto-estima. “Emagrecedor”, “disfarce de silhueta”, “vulgar” e “engordativo” são palavras que classificam a pessoa através dos nosso olhar e só prejudicam a construção da auto-imagem do outro. Não somos nós que dizemos quem o outro deve ser ou parecer, certo? Não existe nada nem ninguém no mundo que pode te dizer o que usar. A única coisa que guia o que você pode vestir é o dresscode (leia aqui sobre a única regra que não pode ser quebrada).

– Aprendi que não adianta tentar padronizar o mundo através de regras criadas pelas nossas próprias réguas. Não é porque o meu quadril é grande e eu não gosto, que todas as outras pessoas de quadril grande devem disfarçar os seus. Não é porque você fez faculdade e tem sucesso, que o outro deve fazer faculdade para ter sucesso. Não é porque você emagreceu e fez dieta, que o outro não possa estar perfeitamente feliz com o próprio corpo. Não é porque você é gordinho e feliz, que o cara que acorda às 7 da manhã para malhar é um infeliz. Não é porque você é entusiasta da cerveja artesanal, que o outro é um idiota por adorar a industrializada. Ninguém tem a obrigação de ser da forma que você planejou.

Em 2015 (e a partir dele), ninguém “tem que” nada.

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3 comentários sobre “Em 2015, ninguém “tem que” nada

  1. Descobri seu blog ontem através de um outro, o Futilidades, e estou amando! Que texto maravilhoso, bem escrito, atual, coerente. Virei fã! Parabéns!

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