Parem os noivados

Minhas amigas sabem muito bem que fico à beira do desespero a cada novo casal que fica noivo no Facebook (salvo algumas exceções), coisa que tem acontecido pelo menos uma vez por semana. Fico louca para perguntar se eles realmente pensaram a respeito do casamento. Minhas amigas dizem que é trauma por ter me divorciado aos 27, mas não é.

É uma questão simples: “Vocês não acham que é uma coincidência enorme que todo mundo esteja achando o ‘amor da sua vida’ na mesma época da vida?”

Li outro dia que nosso complexo de princesa da Disney constrói na gente um desejo intrínseco e quase inconsciente de ser escolhida. De ser a escolhida. De ter o privilégio de ser selecionada por um homem, de ser o motivo pelo qual um cara abrirá mão de toda a sua suposta liberdade e libertinagem. Isso explica muita coisa. Explica a expectativa que a maioria tem em ser pedida em casamento, a sensação de “mission acomplished” quando ficam noivas, o sonho da festa de casamento perfeita e a até a posição de superioridade que pensam alcançar quando já podem preencher “casada” em um formulário qualquer.

Tento não julgar os desejos de ninguém. Mas a verdade é que a mulher que sonha em casar, sonha mesmo em casar com qualquer um. O príncipe encantado é aquele que te pede em casamento, que te salva de uma vida solitária e cheia de perigos aterrorizantes demais para uma mulher enfrentar sozinha.

Ficar noivo, para quem sempre sonhou com o casamento, é entrar numa gincana pessoal de preparativos (deliciosos, devo confessar) que tiram a atenção do que realmente deveria ser resolvido pré-casamento. Antes que os docinhos, as flores e os sabores de bem-casado entrem no caminho, resolvam quem vai lavar a louça aos domingos e qual assinatura da NET vale mais a pena. Porque mesmo que tenha havido uma briga homérica sobre escolher rosas brancas ou vermelhas, domingo tem toda semana e durante a vida toda tem domingo, com louça.

Sabe aquela história de ficar cego de amor? O noivado funciona como uma espécie de lente (engagement goggles) que faz com que você passe mais ou menos um ano da sua vida sem prestar a menor atenção no seu relacionamento. Qualquer impasse e discordância, por mais grave que seja, é visto como uma bobagem: afinal, você já foi escolhida para passar a vida toda com aquela pessoa. E é isso que importa. Isso e as flores do buquê.

E se você leu até aqui e está putadavida comigo, saiba duas coisas: a primeira é que eu não acho que esse seja um comportamento consciente, muito pelo contrário – como disse no segundo parágrafo. Google: complexo de princesa da Disney. A segunda coisa é que, se você pensar bem, você provavelmente não recusaria um pedido de casamento de alguém que conhece, gosta e tem afinidade, só porque ele esquece a luz do quarto acesa. Sem nem saber que essa pode ser a gota d’água no fim do seu casamento.

Escolher alguém para ficar toda a vida do nosso lado, mesmo que não seja toda a vida, é um processo que nada tem a ver com flores e vestidos. Você também faz parte da decisão. Pode ser que você queira casar, mas não agora. Pode ser que você queira casar, mas não com ele. Pode ser que você nem queira casar, mas só queira ele e queira agora. Pode ser que você queira transar com mais umas pessoas. Pode ser que você queira ir ao Marrocos sozinha. Pode ser que você esteja até gostando de outra pessoa. Pode ser que você ainda não saiba nem o que gosta mesmo de fazer. Pode ser que você queira entrar de branco na igreja, mas não tenha ideia do que o tédio pode fazer com um casamento. Pode ser que você não tenha pensado a respeito.

E pode ser que você tenha dado sorte e encontrado o amor da sua vida, e que você mal possa esperar para discutir sobre a real necessidade do pay-per-view do UFC ou sobre usar a mesa de jantar como cabideiro. Pode ser que você não consiga mais ver a vida daqui pra frente sem seu par, mesmo se tudo mudar, mesmo se tudo continuar igual. Acontece.

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8 comentários sobre “Parem os noivados

  1. QUE TEXTO EINNN! Gostei muito. ultimamente tenho recebedio varias noticias de noivados a caminho, e penso comigo… E EU? SOLTEIRA? SOZINHA? e sozinha meeesmo, nao to falando que tenho um p.a. Ninguém pensa se é isso mesmo que realmente quer, ninguem pensa como vai ser morar junto e cada um com sua mania. EU sei que o facebook é uma coisa fora do normal, lá sim é o mundo encantado da Disney onde todo mundo se ama e é tudo lindo, mas qndo desliga o computador acorda e vê que é só uma minisserie da globo de tão ruim. Parece que ta todo mundo desesperadoooo pra ter um status diferente. Sei lá! Obrigada pelo texto!! bjs

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  2. Concordo em partes como texto. Mas tem um ‘Q’ de recalque. Assim como os comentários acima. Aposto que grande parte das noivas do Facebook, mesmo sem casamento marcado, ou descabeladas de preocupação com a cerimônia, ou até mesmo aquelas que nem terão cerimônia, estão muito mais felizes do que vocês.

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    • Oi Dani, tudo bem? Acho muito feio você “acusar” recalque em vidas que você não faz a menor ideia de como funcionam e com pessoas que você não conhece. Se pelo último parágrafo do meu texto, ou até pelos meus últimos textos, você não conseguir aferir que eu sou uma pessoa feliz, é você quem está tão tomada por tristeza tão grande que só consegue ver isso no outro. (Viu como é ruim quando alguém te julga sem te conhecer?) Não vou nem entrar no mérito do machismo intrínseco do comentário, que acha que mulheres que não estão noivas estão tristes, porque machismo não tem lugar aqui no meu bloguinho.

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  3. Uma palavra sobre o texto: recalque
    Um comentário sobre não aceitar críticas negativas: não acuse alguém de te julgar sem te conhecer se o seu texto foi um grande julgamento das pessoas que você não conhece

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  4. Muitas pessoas acham que o relacionamento é parâmetro para ser bem sucedido na vida. Portanto, se alguém está sozinho, é infeliz, mal sucedido, etc. Além disso, como você disse, casamento não é festa todo dia.
    O que eu tenho mais visto são pessoas que vivem uma ilusão. Fingem não se importar, porque fulano/a tá fazendo algo desagradável ou evitam uma discussão para resolver os pequenos impasses. Essas coisas se acumulam até um ponto que não dá para aguentar e, aí, é o fatídico momento em que o/a tal fulano/a se “revela”. Ou acham que podem mudar alguém ao longo do tempo.
    Desconfio logo de alguém que diz que não briga. Se não há, nem que seja uma pequena discussão, alguma coisa está errada. Ninguém se importa.
    Antes de mostrar pro mundo o noivado, penso ser importante pensar no que a outra pessoa significa para si mesmo e se será possível aceitar/ conviver com os defeitos do outro.
    BTW, ótimo texto!

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  5. A pergunta é: como não conheci seu blog antes? Simplesmente amando seus textos! E as análises de looks do dia também, vai! Muito prazer, Nina!

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