Não me encaixo em lugar algum

Esse não é um post depressivo de quem não se vê. Esse não é um post de recaída pré-adolescente. Esse é um post sobre as pessoas e seus castas próprios, sobre a mania que têm de formar pequenos grupos com regras de “pertencimento” firmes em fundações fantásticas.

Nunca fui uma pessoa particularmente expansiva. Pelo contrário. Gosto da posição de observadora, do meu canto, das longas conversas comigo mesma, da companhia de poucos. Para mim, a maior liberdade que existe é se sentir confortável com o silêncio. O ser sociável apareceu em mim aos 15 anos, porque se isolar do mundo é fácil, mas é chato. Ainda sou séria, passo quilômetros da personalidade “bubbly”, mas pelo menos sei conversar e tenho genuíno interesse nas outras pessoas. Yay, me!

Mas, depois de ter passado tanto tempo dentro de mim, desenvolvi um eu muito próprio – e pode ir parando já, se você acha que isso é redundante. Quando comparo meu eu com o de outras pessoas, o meu parece uma colagem louca e nonsense de gostos e desgostos, hábitos e preferências que não combinam entre si. Perdi o bonde do pertencimento. Não sou hipster, não sou nerd, não sou careta, não sou periguete, não sou a menina típica da zona sul, não sou fitness, não sou dona de casa, não sou mulher-guerreira-trabalhadora, não sou personagem de comercial de margarina, ou de absorvente ou de dia das mães.

Poderia aqui dizer que “pertenço um pouco a cada lugar”, “me encaixo em todos os grupos”, “flutuo em todos os castas”. É o cacete. A verdade é que eu não encaixo em lugar nenhum. E não por minha causa.

Gosto de Game Of Thrones, de XMen, de zumbis, de tecnologia de ponta, de entender sistemas, de jogos de lógica. Mas não posso ser nerd, simplesmente porque não sou obcecada por nenhum desses assuntos. Se não li todos os livros de GoT ou se meu conhecimento sobre zumbis se resume a The Walking Dead ou se eu sei HMTL mas não sei Java, well not good enough.

E isso vale para todas as categorias. Gosto de Pollock e Degas, tenho conhecimento básico de história da arte, mas não fui a Inhotim.

Gosto de Ella Fitzgerald, Of Monsters and Men, Los Hermanos, DMB e Johnny Cash mas também gosto de Miley Cyrus, Kelly Clarkson, Beyoncé e Justin Timberlake. Adoro um monte de banda, mas não tenho o menor interesse em ir no Coachella.

Gosto de brigadeiro, coxinha e bacon, mas (na mesma proporção) gosto de rúcula, edamame e chá de capim limão com gengibre.

Sei falar inglês, sei ler em espanhol, mas em francês só sei contar até 5 e tudo que aprendi de alemão já me esqueci.

Gosto de futebol, baseball e tênis, mas não lembro nomes de jogadores, estatísticas e perco vários jogos por estar fazendo outra coisa.

Gosto de gatos, baleias, ursos, cachorros, mas quando criança não gostava de bicho algum.

Gosto de roupa, de estética, de estudar e entender o mercado de moda. Mas acho história da moda um porre, esqueço o nome dos estilistas e simplesmente detesto desfile.

Tenho 7 tatuagens, mas nenhuma com mais de 5cm.

Li Clarice e Jane Austen antes dos 20 anos, mas não lembro uma palavra do que li. Li muita coisa, mas meu rol de favoritos é composto por Harry Potter, The Perks of Being a Wallflower e a biografia do Agassi.

Tenho convicções feministas, não suporto que as coisas sejam categorizadas por gênero, sou pro-choice e pro-love, mas acho que meninas são meninas e meninos são meninos (mesmo que seja confuso).

Uso por volta de 8 produtos de beleza todos os dias, mas não faço as unhas no salão há quase um ano. Adoro maquiagem, mas tenho quase um prazer secreto em não pentear meus cabelos. Não resisto a um unicórnio e fofurinhas em geral, mas gosto de beber uísque, single malte.

Well, not good enough para pertencer a qualquer grupo social.

EPÍLOGO (porque senti necessidade):

É verdade que eu gosto das pessoas. Gosto dos defeitos, das particularidades, de entender os porquês de cada um. Gosto de saber o que para ou move alguém, gosto de ouvir (talvez seja minha coisa preferida). Mas não gosto e não sei conviver com os personagens criados para pertencer aos grupos, com personalidades que parecem escolhidas em catálogo, escolhas milimetricamente planejadas para parecerem espontâneas.

Pior que isso, não aguento os falsamente alternativos, os falsamente livres. Os moderninhos da Comuna, com suas roupas iguais, mas compradas em uma feirinha “única”, com suas bandas que ninguém conhece, a não ser todos os que você conhece, com suas festas e rodas secretas que todo mundo sabe onde acontecem, com suas piadas internas e suas referências que apenas “entendedores entenderão” espalhadas e copiadas à exaustão na internet, com os mesmos filmes e livros preferidos e dissecados a fundo, com as mesmas tendências e sequências de pensamento. Os moderninhos que se acham um degrau acima na escala de evolução dos “coxinhas” que vestem polo ralph lauren em seus empregos formais e ouvem sertanejo porque sim, e que malham todos os dias e viajam para Miami. São todos iguais.

E me cansam profundamente.

Anúncios

10 comentários sobre “Não me encaixo em lugar algum

  1. nós somos maiores q conceitos, e na boa: muito melhor vagar entre tudo do q ser só uma coisa quadrada. somos únicos, mas vc é mais unica hahaha

    Responder
  2. Seu texto traduziu muito do que eu sempre senti e nunca consegui definir direito: eu também sou assim, não pertenço a lugar nenhum, tanto pela minha aparência, quanto pelo que eu gosto, escuto, leio, consumo. Já sofri com isso, já tentei pertencer, mas hoje gosto de pensar que faço parte de um limbo onde estão pessoas que não têm a cara decifrada em 5 minutos de convivência. Na verdade, nem em muitas horas de convivência… (aliás, por que as pessoas adoram fazer isso com as outras?). Resumo da ópera: parabéns pra gente!

    Responder
  3. Adorei o texto!! Descobri seu blog há umas duas horas, comecei a ler os textos e não consegui mais parar. Que talento com as palavras e que facilidade em expressar o que tantos de nós gostaríamos de dizer. Não repara se eu começar a comentar posts antigos, é que só estou lendo agora, infelizmente.

    Responder
  4. Me identifico com você, não em relação aos gostos, mas ao fato de não conseguir pertencer a um grupo específico. Eu transito entre os grupos, mas é só isso, é algo de passagem, não consigo pertencer. Isso realmente me confunde e logo depois, me deprime. Porque eu sinto a necessidade de me unir aos meus semelhantes. Mas parece que esses são tão escassos, que dificulta encontrá-los (eu “capturei” um, o meu namorado rs) Sabe o que não entendo?É as pessoas te admirarem e mesmo assim, te evitarem. Basicamente é isso o que sinto que acontece. Enfim, gostei muito do seu texto, expressou esmiuçadamente o que muitos sentem nesse mundão de cópias falsas.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s